Arquivo mensal: Abril 2009
Gato escondido …

Genéricos, sim ou não
O que se passa, é que num fármaco não existe só a molécula activa, a responsável efectiva pelo tratamento; há também as substâncias que veiculam essa molécula, nas diversas formas de apresentação conhecidas. Esta questão tem produzido algum retraimento na prescrição de genéricos, porque embora não devamos ter dúvidas quanto à boa qualidade da molécula activa, surgem por vezes intolerâncias por parte dos doentes e que estão relacionadas com o veículo da mesma.
Mas há mais; e eu fui testemunha disso algumas vezes. Nem sempre a eficácia de alguns genéricos se mostra equivalente à do produto de marca; isso obriga a um reforço da dose para o mesmo efeito terapêutico, senão à substituição do fármaco.
Penso que estas e outras questões têm de ser avaliadas, e obviamente, não são processos rápidos.
Mas o segundo ponto é muito mais preocupante.
A responsabilidade de quem observa o doente, elabora um diagnóstico e decide um tratamento, não pode ser repartida por outro que não tenha prestado colaboração em nenhum destes passos, e não possua conhecimentos para isso. E se pensarmos, todos o sabemos, que o maior atendimento nas farmácias é feito por um funcionário da mesma, de modo algum se pode pactuar com uma situação dessas. É uma questão de Ética Profissional.
Quando este problema se colocou há uns anos atrás,tinha a finalidade de promover o uso de genéricos. Foi contestado, mas não se conseguiu na altura mais que a possibilidade de os Médicos poderem expressar na receita a vontade de autorizar ou não a referida substituição.O poder político não teve sensibilidade para mais. Foi o mal menor.
Hoje assistimos à desfaçatez de um anúncio de televisão, de uma forma encapotada e cobarde, com o falso argumento de defender os interesses dos doentes, dizer,” agora já pode comprar os medicamentos mais baratos”. Publicidade da responsabilidade da Associação Nacional de Farmácias, e que usurpa o direito de substituir medicamentos nas receitas médicas mesmo sem autorização prévia.
Que forma fantástica de passar a ideia de substituir o medicamento que o Médico entendeu ser necessário, por aquele que a A.N.F.quiser, e que será obviamente aquele que ela produz. Nem mais, a A.N.F. quer produzir genéricos. Que rico monopólio!
Quando a Ministra da Saúde na sua voz serena, sem a elevar e sem a acelerar, antes voltando atrás sempre que um Jornalista faz que não entende, explicava que não pagará as receitas que se apresentarem violadas, e entenda-se por violadas as que forem alteradas sem autorização do Médico, o Sr. Presidente da A.N.F. reagiu, apontando o dedo aos Médicos do S.U. do Hospital de Cascais afirmando haver corrupção.
Havendo corrupção, castiguem-se os prevaricadores; ou quererá benesses à custa dos corruptos?
Mas há tantas prevaricações nas farmácias! A venda de antibióticos sem receita médica! …Haveria tanto para dizer!
Voltando ao fio da conversa, apenas quero dizer que é ao Médico que compete encontrar a forma correcta de tratar o seu Doente; conciliando o melhor tratamento com o melhor preço possível. E não será nunca o Farmacêutico que terá competência para o fazer; a menos que o Médico se demita das suas obrigações.
Portanto, Sr.Dr. Cordeiro, saia do esconderijo. Faça como o gato da imagem: mostre-se.
Já se percebeu que quer substituir a seu bel-prazer todo o receituário que puder pelos seus genéricos.Não se preocupe tanto com os cidadãos; os outros também o sabem fazer.
A isso diz-se: gato escondido com rabo de fora.
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Conceição Cancela
Mário Soares

Soares diz que apoio de Sócrates a Durão Barroso é Nacionalismo no pior sentido da palavra; não é Patriotismo.
Porque Patriotismo tem a ver com amor e interesse pelas nossas características como Povo; e se houver um mau português, não o vai apoiar só porque é português.
É que estou mesmo de acordo!
40 anos da Revolta Académica de Coimbra
Sem o impacto, e muito longe da extensão e consequências dos factos deste importante Movimento Académico,recordo um episódio que se passou no Porto 10 anos antes, à saída de um espectáculo do Orfeão Universitário do Porto, com a presença do Ministro da Educação. Abrimos alas à passagem do ministro, mudos, e não estendemos as capas no chão como era habitual. Foi um momento vivido com muita ansiedade e houve represálias como seria de esperar.
Mas a Academia em Coimbra era outra coisa e os tempos também. Já havia guerra colonial, Salazar tinha morrido e Marcelo acenava com alguma abertura, o que obviamente o fragilizou. E, a título de exemplo, já tinha acontecido o Maio de 68 em Paris.
Não pretendo diminuir a coragem e a capacidade de organização da Academia de Coimbra; mas estas coisas tiveram começos apagados, longínquos e muitas vezes anónimos; até porque o terror da “pide” o exigia.
Cada um no seu canto, o sentiu. E enquanto houver “desses”, que de uma forma ou de outra viveram na penumbra do conhecimento, das ciências, das letras , das artes , porque viviam num País que o repelia e cultivava a ignorância, e que muitos deles sofreram na pele a raiva da polícia e a solidão do exílio, teremos de falar bem alto, para aviso dos que vêm.