Jornalista – No entanto, mesmo no campo da música séria, que é de facto, aquela a que me quero referir, há nomes, há individualidades, há compositores em actividade…
Autor – Nada vulcânica. Desengane-se, meu amigo, os compositores portugueses não são, não podem ser socialmente activos, porque nada, ninguém solicita a sua actividade. O que somos é para aqui uma meia dúzia, de indivíduos atacados da “loucura massa”, como diria o ilustre Honegger, de escrever obras musicais, mercadoria que no nosso País não tem a menor cotação intelectual, produtos de engenho ou de ilusão por que ninguém dá, que ninguém consome, salvo em ocasiões mais ou menos solenes, mais ou menos artificiosas. A actividade do compositor nacional é uma coisa meramente gratuita, idealista, uma tineta pessoal, pois que não corresponde a qualquer imperativo ou necessidade espiritual profunda, nem da parte do povo, que não sabe, ou sabe apenas vagamente, o que isso é, nem da parte das sedicentes elites, que fingem sabê-lo, mas que, quando à música não preferem a canasta, o fado ou a bola, se riem nas bochechas do pobre artista nacional quando este tem a veleidade de as querer fazer partícipes do seu sonho ou ideal de beleza.
Fernado Lopes Graça in A MÚSICA PORTUGUESA E OS SEUS PROBLEMAS
Actualíssimo o que disse Lopes-Graça e muito adequada a sua citação, Artimanha.
Abraço
É sempre bom ler e reler Lopes Graça.
Nos tempos que correm faz todo o sentido.
(obrigada pelo comentário)